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Rotina traz segurança, mas pode minar criatividade: veja como equilibrar

 

Acordar sempre no mesmo horário, ir para o trabalho, encontrar as mesmas pessoas, passar o dia num ambiente conhecido e voltar para casa à noite sabendo exatamente o que nos espera. Há quem sinta uma sensação de aconchego em fazer todo dia tudo sempre igual, como diz a música Cotidiano, de Chico Buarque. Só que para muita gente, a mesmice é o pior dos castigos.

A rotina divide opiniões. Mas ela tem um lado bom? “A rotina proporciona serenidade em sua organização e previsibilidade”, afirma Rachel Schlindwein-Zanini, neuropsicóloga do Hospital Universitário da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Segundo a neuropsicóloga, ela é benéfica principalmente para que tem transtorno do espectro autista e doença de Alzheimer, por exemplo. A rotina representa um porto seguro para essas pessoas, que precisam de um cronograma de atividades definido para não se sentirem perdidas. Mas não só para elas. “Nós, seres humanos, temos uma necessidade enorme de nos sentirmos seguros. E isso vem da pré-história”, diz Paulo Motta, professor de psicologia da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

A rotina vai muito além das trivialidades do dia a dia. Também é feita de tarefas importantes que, quando programadas, tendem a ser mais bem desempenhadas. “A rotina traz a ideia de organização. A gente vai encadeando uma tarefa na outra e fica mais fácil de lembrar o que vem em seguida”, analisa a psicóloga Roberta Pohl. Essa organização proporciona uma sensação de bem-estar pelo dever cumprido.

Ou seja, mesmo que algumas pessoas não a vejam com bons olhos, a rotina impede que o cotidiano se transforme em uma bagunça. Motta diz que outro ponto positivo é a disciplina que ela traz para elaborarmos o que planejamos fazer. Outro ponto é que ela também traz a sensação de uma vida mais arrumada. E um ambiente ordenado nos ajuda a estabelecer objetivos, propósitos e descobrir os significados que queremos dar à existência.

É preciso ter equilíbrio

Se por um lado a rotina funciona como uma espécie de norte para uma vida confortável e produtiva, por outro ela implica no risco de não buscar o diferente. “A rotina envolve hábitos, comportamentos e ações que se repetem, podendo se consolidar em pensamentos e atos ‘automáticos’. Em tese, quanto mais condicionados, menos requerem reflexão para serem concretizados”, pontua Schlindwein-Zanini, acrescentando que eles estão relacionados à memória não-declarativa (implícita). É o que acontece quando, por exemplo, fazemos sempre o mesmo trajeto de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

Quando entramos demais nesse automatismo, além de não estimular o cérebro, ficamos menos criativos, corremos o risco de estacionar na vida ou cansar de fazer as mesmas coisas. Com o passar do tempo, podemos ficar estressados, principalmente se tivermos um volume grande de tarefas, elas forem repetitivas e realizadas sempre no mesmo local. Por isso que as férias fazem tão bem. “A gente descansa das mesmas tarefas, do mesmo lençol, das mesmas pessoas, da casa”, observa Pohl.

Esse é um dos motivos pelos quais ter uma rotina mais flexível, com abertura para o novo, é tão importante. “As novidades e mudanças de rotina quando adequadas ajudam o cérebro nas sinapses dos neurônios, estimulam outras funções cognitivas e áreas cerebrais”, diz Schlindwein-Zanini.

Mas sair totalmente da rotina também pode nos dar a impressão de que o chão está faltando. “Um cotidiano tenso e imprevisível cronicamente com expectativas elevadas é maléfico, pois promove alteração nos níveis de cortisol, hormônio que auxilia no controle do estresse”, avalia Schlindwein-Zanini. Como resultado, a pessoa pode desenvolver distúrbios psicológicos como depressão, ansiedade, alterações na memória e na aprendizagem.

Quando a mesmice faz mal

Embora algumas pessoas lidem bem com a rotina porque nela encontram segurança para construir o cotidiano que desejam, ter um dia a dia esquematizado não é uma ideia que agrada a todos. Geralmente, pessoas que têm dificuldade de concentração e ansiedade elevada não se encaixam bem em uma rotina rigorosa, com horários rígidos e compromissos programados, de acordo com Pohl. Elas precisam de uma certa flexibilidade para funcionar melhor, ter mais realizações e não achar a vida monótona e entediante.

Mergulhar completamente na rotina pode ser nocivo à saúde emocional. Como em tudo na vida, nesse caso o excesso também faz mal. “A rotina neurótica que atrapalha o desenvolvimento normal e natural dos acontecimentos do dia a dia é ruim”, enfatiza Motta. Para ele, uma possível consequência é a pessoa viver num mundo construído dentro da própria rotina e deixar de se importar com o que acontece ao redor.

Há também quem tenha pavor de “cair na rotina” pelo desgaste que ela pode causar. Imagine passar trinta anos ou mais na mesma sala da empresa, fazendo o mesmo tipo de trabalho. Em uma situação dessas, a pessoa pode experimentar uma mistura de sentimentos, como estresse, ansiedade e frustração. E acabar desistindo de tudo.

Como quebrar a rotina?

É possível encontrar um meio termo entre o que a gente costuma e precisa fazer e o que pode colocar de novidade na vida. Uma dica para isso é mudar algumas atividades realizadas no dia a dia. Na prática, você pode incluir uma sessão de cinema no meio da semana ou convidar um amigo para tomar um café fora de hora.

Experimentar fazer um caminho fora do habitual, passando por ruas desconhecidas ou simplesmente andando do outro lado da calçada. Trocar a academia por uma caminhada num parque diferente. Ou procurar ver os lugares que já conhece com um olhar diferente.

Pode parecer uma sugestão simples, mas tem um efeito poderoso, inclusive para quem tem a saúde debilitada. Schlindwein-Zanini trata de adultos e idosos com diferentes condições neurológicas como epilepsia, AVC, traumatismo crânioencefálico, Alzheimer e Esclerose Lateral Amiotrófica. A especialista recomenda para eles atividades como leituras, jogos virtuais e de tabuleiro, artes plásticas, atividade física de acordo com a condição de cada um, escrita com a mão não-dominante, passeios e novos aprendizados, como música e idiomas. E garante que essas pequenas mudanças na rotina fazem a diferença na vida dos pacientes.

 

Uol, Viva Bem. “Rotina traz segurança, mas pode minar criatividade: veja como equilibrar”. Disponível em: <https://www.uol.com.br/vivabem/noticias>

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